No folclore das oficinas e nas conversas de entusiastas, poucas ideias são tão lendárias e tentadoras quanto a de colocar gasolina de avião em um carro. A promessa é de um ganho de potência explosivo, transformando um motor comum em uma usina de força.
A lógica parece simples: se serve para um avião, deve ser melhor. Mas, por trás desse mito, existe uma realidade química e mecânica que pode ser absolutamente devastadora para o seu veículo.
A resposta curta e direta para a pergunta é: não, você não deve fazer isso. Nunca. E vamos explicar em detalhes o porquê.
O que é a Gasolina de Avião (Avgas)?

Primeiro, é preciso entender que a “gasolina de avião”, conhecida tecnicamente como Avgas (Aviation Gasoline), é um combustível completamente diferente da gasolina que usamos em nossos carros.
Seu grande atrativo é a altíssima octanagem, geralmente 100LL (Low Lead), que permite que os motores a pistão de aeronaves operem sob altíssimas taxas de compressão sem sofrer detonação (a famosa “batida de pino”).
No entanto, a Avgas possui uma característica que foi banida dos carros de rua há décadas: ela contém chumbo tetraetila como agente antidetonante. E é exatamente neste metal pesado que reside o veneno para qualquer carro moderno.
O Mito da Potência: Existe Algum Ganho Real?
Teoricamente, a alta octanagem da Avgas poderia permitir um ganho de potência, mas isso só aconteceria em um cenário muito específico: um motor de competição, totalmente preparado, com uma taxa de compressão altíssima e uma central eletrônica (ECU) programada especificamente para este combustível.
Em um carro de rua original, o ganho de performance é praticamente nulo. A injeção eletrônica do seu carro foi calibrada para trabalhar com a octanagem da gasolina comum ou aditivada. Ela não consegue “aproveitar” a octanagem extra do Avgas.
A pequena melhora na resistência à detonação que o combustível poderia oferecer é ofuscada pelos danos catastróficos que ele causa.
Impacto no Escapamento
O primeiro sinal visível de que um carro foi abastecido com Avgas aparece na parte externa, mais especificamente no escapamento.
O chumbo presente no combustível não é completamente queimado e se deposita como um resíduo branco ou acinzentado na ponteira do escape. Este é o “dedo-duro” clássico, um sinal que mecânicos e preparadores experientes reconhecem de longe.
Impacto no “Design” Interno (O Motor)
É no interior do motor e do sistema de exaustão que o desastre acontece. O chumbo atua como um veneno para os componentes mais sensíveis e caros de um carro moderno.
1. Morte do Catalisador: O catalisador, peça fundamental do sistema de escapamento, utiliza metais nobres (como platina e ródio) para transformar os gases tóxicos em substâncias menos nocivas. O chumbo da Avgas impregna esses metais e os contamina de forma irreversível, “entupindo” a peça e a tornando inútil. A troca de um catalisador é um dos reparos mais caros.
2. Morte da Sonda Lambda: A sonda lambda (ou sensor de oxigênio) é o “nariz” do sistema de injeção. Ela “cheira” os gases do escape e informa à central eletrônica se a mistura de ar/combustível está rica ou pobre. O chumbo também contamina este sensor, fazendo com que ele envie leituras erradas. O resultado? O carro passa a consumir mais combustível, perde potência e polui mais.
3. Danos Internos ao Motor: A Avgas tem uma queima mais lenta e fria que a gasolina automotiva. Seu uso contínuo pode levar à formação de depósitos de carbono nas válvulas, na cabeça dos pistões e nas velas de ignição, prejudicando a performance e, a longo prazo, causando danos sérios ao motor.
A Alternativa Correta: Gasolina de Alta Octanagem
Se o seu carro é de alta performance e exige um combustível com maior octanagem, a solução correta e segura já existe nos postos de combustível: a gasolina de alta octanagem, como a Podium da Petrobras.
Esses combustíveis oferecem uma octanagem elevada, mas são totalmente livres de chumbo e foram desenvolvidos especificamente para a tecnologia dos motores modernos, sendo a única opção segura para extrair a máxima performance do seu veículo.
Mantenha a Avgas Longe do seu Carro
A ideia de usar gasolina de avião no carro é um dos mitos mais persistentes e perigosos do mundo automotivo. O ganho de potência em um carro de rua é desprezível, enquanto os danos ao sistema de injeção e escapamento são garantidos e extremamente caros.
O chumbo é um veneno para os carros modernos. Portanto, a regra é clara e definitiva: mantenha a gasolina de avião onde ela pertence – nos aviões.






