A Fiat Titano (lançada em 2024) é a grande aposta da Stellantis para finalmente entrar na briga mais lucrativa do Brasil: a das picapes médias (Hilux, S10, Ranger). Com a força da marca Fiat e uma rede de mais de 500 concessionárias, a Titano tem uma grande vantagem comercial.
No entanto, o veículo em si não é um projeto Fiat. É uma picape global, fruto de uma parceria da Peugeot com a chinesa Changan (onde é vendida como Landtrek ou Kaicene F70). Por ser tão nova em nosso mercado, seus “problemas crônicos” estão começando a ser mapeados agora, como “dores do crescimento” ou características de projeto que a diferenciam das rivais.
É importante frisar: os problemas relatados até agora não afetam a confiabilidade estrutural (o chassi é robusto), mas sim o refinamento, o conforto e o pós-venda.
1. O Acabamento Interno (A “Economia Visível”)
Este é, de longe, o ponto mais criticado por jornalistas e pelos primeiros proprietários.
- O Sintoma: Uma cabine com design moderno, mas construída inteiramente com plásticos rígidos (duros).
- A Causa Real: É uma característica do projeto original (Peugeot/Changan) focado em custo. O acabamento do painel, dos forros de porta e do console central não tem a mesma percepção de qualidade ou o refinamento (soft touch) encontrados nas versões topo de linha de rivais como a Ford Ranger ou a VW Amarok. A sensação é de estar em um SUV compacto da Citroën (C3/Aircross), e não em uma picape de mais de R$ 200 mil.
- O Risco: Além da sensação de “carro barato”, a chance de desenvolver “grilos” (ruídos de plástico vibrando) com o tempo de uso no asfalto brasileiro é altíssima.
2. Suspensão Traseira “Pula-Pula” (Falta de Refinamento)
Uma queixa muito comum de quem dirige a Titano, especialmente com a caçamba vazia.
- O Sintoma: A picape “pula” excessivamente ao passar em buracos, valetas ou lombadas, sendo desconfortável para o uso urbano.
- A Causa Real: A calibração da suspensão traseira (feixe de molas) foi 100% focada na robustez e na capacidade de carga (mais de 1.000 kg). A Fiat não fez o mesmo trabalho de “tropicalização” e refinamento que a Ford fez na nova Ranger, por exemplo, para tornar a picape confortável como um carro de passeio.
- A Solução: É uma característica do projeto. O conforto só melhora quando há peso na caçamba.
3. Motor 2.2 BlueHDi (O “Turbo Lag” e a Potência)
O motor 2.2 BlueHDi (diesel) é confiável e já usado em vans na Europa (Boxer/Ducato), mas na Titano, ele gerou duas queixas principais.
- O Sintoma: Uma demora perceptível para a picape “responder” quando se pisa no acelerador em baixas rotações (o famoso “turbo lag”). Além disso, os 180 cv de potência parecem insuficientes em comparação com os 200+ cv das rivais.
- A Causa Real: O motor foi calibrado para entregar força (40,8 kgfm), mas a sua curva de potência e a resposta do câmbio automático de 6 marchas não são tão ágeis quanto as das concorrentes mais modernas (como a Ranger V6 ou a Hilux com motor recalibrado).
- O Risco: Não é um defeito, mas uma característica que pode frustrar quem busca uma picape “esperta” para retomadas na estrada ou no trânsito.
4. O Fantasma do Pós-Venda (Demora de Peças)
Este não é um problema do carro em si, mas da experiência de ser dono de uma Titano hoje.
- O Sintoma: Em caso de colisão, os proprietários relatam uma espera longa (semanas ou meses) por peças de reposição básicas, como para-choques, faróis ou componentes da suspensão.
- A Causa Real: A picape é um projeto Peugeot/Changan importado (do Uruguai) e “nacionalizado” pela Fiat. A rede de peças da Mopar ainda não está totalmente estruturada para a demanda de um veículo que não compartilha componentes com o resto da linha Fiat (Toro, Strada, Pulse). A peça do motor não é a mesma do Compass diesel, é uma peça de Peugeot Boxer.
- O Risco: Ficar com o carro parado por meses esperando um reparo, mesmo que a batida tenha sido leve.
Uma Picape Robusta, Mas que Ainda Precisa de Refinamento
O Fiat Titano é um projeto estruturalmente robusto, focado no trabalho pesado. Seus problemas crônicos não são de confiabilidade mecânica grave.
Tratam-se de “dores do crescimento” e de características de projeto. A Stellantis apostou que a força da marca Fiat e sua capilaridade de concessionárias seriam suficientes para superar a falta de refinamento no acabamento e na suspensão.
Ao comprar uma, faça um test drive completo e verifique o custo do seguro. E, o mais importante: tenha em mente que o pós-venda, por enquanto, não é o mesmo de uma Strada ou Toro.






