O Marcopolo Paradiso G8 1600 LD (lançado em 2021) é a atual referência em luxo e tecnologia no transporte rodoviário de longa distância no Brasil. Com seu design futurista, interior sofisticado e a posição de dirigir rebaixada (“Low Driver”), ele é o “sonho de consumo” de toda grande empresa de viação.
No entanto, como acontece com todo projeto de altíssima complexidade e que representa um salto tecnológico (neste caso, sobre o G7), os primeiros anos de operação (2021-2025) já revelaram um padrão de problemas crônicos e queixas recorrentes de motoristas e frotistas.
É crucial entender que, em um ônibus, os problemas se dividem:
- Chassi e Motor: Responsabilidade da fabricante do chassi (Mercedes-Benz, Scania ou Volvo).
- Carroceria e Acabamento: Responsabilidade da Marcopolo.
As principais queixas do G8 se concentram, até agora, na carroceria e em suas novas tecnologias.
1. O “Apagão”: Bugs e Travamentos do Novo Painel (Multiplex)
Este é o problema mais “moderno” do G8 e o que mais gera reclamações de motoristas. A Marcopolo substituiu os antigos painéis por telas TFT digitais (similares ao VW Play) que controlam quase tudo no ônibus (o sistema Multiplex).
- O Sintoma: A tela central “congela”, o touch para de responder, a câmera de ré ou de salão não abre, ou, no pior cenário, o painel dá um “apagão” completo no meio da viagem, reiniciando sozinho.
- A Causa Real: Instabilidade de software. Como toda tecnologia digital de primeira geração, o software que gerencia o Multiplex do G8 foi lançado com bugs que causam conflitos e travamentos.
- A Solução: Paciência e atualizações de software. A Marcopolo tem liberado diversas atualizações para corrigir essas falhas. Em casos mais raros, é necessária a troca do módulo do painel, um reparo caro feito em garantia.
2. Os Ruídos de Acabamento
Um problema clássico em ônibus, mas que parece ter se intensificado no G8.
- O Sintoma: Um “festival de grilos” e “nhec-nhec” constantes. Ruídos de plástico vibrando contra plástico, que vêm do painel, das tampas dos bagageiros superiores (porta-pacotes) e das janelas coladas.
- A Causa Real: Um ônibus de 14 metros (como o 1600 LD) sofre uma torção estrutural imensa. O acabamento interno do G8 usa muitas peças plásticas de encaixe. Com a vibração do motor diesel e a torção da carroceria, essas peças atritam e geram ruído.
- A Solução: Reclamações na concessionária (para reaperto e aplicação de feltros e espumas nos pontos de contato).
3. Infiltração de Água e Poeira
Esta é uma queixa grave, especialmente para empresas que rodam em linhas com trechos de terra ou em regiões de muita chuva.
- O Sintoma: Água escorrendo pelas vigias de teto (saídas de emergência) ou pelas janelas laterais coladas, molhando as poltronas dos passageiros. Em rotas de terra, a poeira invade o salão de forma excessiva.
- A Causa Real: Falha na vedação (calafetagem) das janelas panorâmicas coladas e, principalmente, das vigias de teto. A vedação original tem apresentado ressecamento ou falha de aplicação em algumas unidades.
- A Solução: Um serviço de “calafetagem”, onde um profissional remove e reaplica o selante de vedação nas janelas e vigias.
4. Problemas do Chassi (Euro 6): Filtro DPF e Arla 32
Este não é um problema da Marcopolo, mas sim do veículo como um todo. Afeta todos os G8 (Mercedes-Benz, Scania e Volvo) fabricados a partir de 2023, que seguem a norma Euro 6.
- O Sintoma: Luz da injeção acesa, luz de aviso do DPF (filtro de partículas) no painel, perda de potência e o carro entrando em “modo de emergência” (limp mode).
- A Causa Real: O sistema de pós-tratamento de gases (DPF e Arla 32) é extremamente sensível à qualidade do Diesel S-10 e ao perfil de uso. Se o ônibus é usado em rotas curtas, que não permitem que o sistema atinja a temperatura ideal para a “regeneração” (queima da fuligem), o DPF entope.
- A Solução: Manutenção preventiva rigorosa, uso de Arla 32 de altíssima qualidade e, em muitos casos, a “regeneração forçada” via scanner na concessionária.
Um Gigante Tecnológico com “Dores de Crescimento”
O Marcopolo Paradiso G8 1600 LD é um salto tecnológico inegável. Os chassis (o “powertrain”) são robustos e confiáveis.
No entanto, suas falhas crônicas estão ligadas às “dores do crescimento”: a implementação de um novo (e complexo) sistema digital e o refinamento do acabamento de uma carroceria totalmente nova.
Ao comprar um G8 usado, a inspeção do histórico de manutenção do chassi (especialmente do DPF) e a verificação de ruídos e infiltrações na carroceria são os pontos mais importantes da sua avaliação.






