No final da década de 1980, o universo dos supercarros era um território dominado por máquinas europeias, famosas por sua beleza, performance e, muitas vezes, por seu temperamento difícil. Foi nesse cenário que a Honda, então no auge de seu domínio na Fórmula 1, decidiu lançar a mais audaciosa de todas as missões: construir um supercarro que não apenas igualasse o desempenho de uma Ferrari, mas que o superasse em tecnologia, confiabilidade e usabilidade diária.
O resultado dessa ambição foi o lendário Honda NSX.
Lançado em 1990, o NSX não foi apenas um carro; foi um divisor de águas, um golpe de precisão da engenharia japonesa que reescreveu as regras do jogo e forçou toda a indústria a evoluir. E para o orgulho do Brasil, essa história teve a participação fundamental de um mestre: Ayrton Senna.
Design Exterior: A Inspiração em um Caça F-16

A filosofia de design do Honda NSX foi inspirada na aviação de alta performance. Os engenheiros e designers estudaram a cabine de um caça F-16 para replicar sua visibilidade panorâmica de 360 graus, um contraste gritante com os cockpits claustrofóbicos dos supercarros da época.

Isso resultou em um design “cab-forward”, com a cabine avançada e uma traseira longa, que não só otimizava a visão do piloto, mas também melhorava a estabilidade em altas velocidades.

O visual era a síntese perfeita da década: baixo, largo, com linhas limpas e os icônicos faróis escamoteáveis. A carroceria, no entanto, escondia sua maior revolução. O NSX foi o primeiro carro de produção em série do mundo a utilizar um monocoque totalmente em alumínio, uma tecnologia derivada da F1 que resultou em um chassi extremamente rígido e cerca de 200 kg mais leve que uma estrutura de aço equivalente.
Interior: O Cockpit Focado na Visibilidade e Ergonomia

Continuando a inspiração no caça a jato, o interior do Honda NSX foi projetado para ser um cockpit funcional, com foco total no piloto. A posição de dirigir era baixa e esportiva, mas a ergonomia era impecável e a visibilidade, excepcional para um carro de motor central.

Diferente de seus rivais italianos, conhecidos pelos interiores apertados e comandos mal posicionados, o NSX oferecia um ambiente confortável e intuitivo. Cada carro era montado à mão por uma equipe de 200 dos técnicos mais experientes da Honda, garantindo um nível de qualidade de construção até então inédito no segmento.
Revolução Tecnológica: O Coração VTEC V6

O desenvolvimento do motor do Honda NSX foi uma saga à parte. O plano inicial era usar um V6 mais simples, mas o então presidente da Honda, Tadashi Kume, interveio e fez uma exigência: o novo supercarro da marca precisava ter a revolucionária tecnologia VTEC.
Isso forçou os engenheiros a redesenhar o motor no final do projeto. O resultado foi o lendário C30A, um motor 3.0 V6 com comando de válvulas variável (VTEC), bielas de titânio e pistões forjados, capaz de girar a estonteantes 8.300 RPM.
A mudança de última hora foi tão drástica que o novo motor, com seus cabeçotes maiores para abrigar o complexo sistema VTEC, não cabia mais no cofre original. A solução? Inclinar todo o conjunto em 5 graus para trás, uma característica que permaneceu até o fim da produção do carro.
O Toque do Mestre: A Participação de Ayrton Senna
No auge de sua parceria vitoriosa com a Honda na McLaren, Ayrton Senna foi convidado para testar um dos protótipos finais do NSX no circuito de Suzuka. E seu feedback foi direto e implacável.
Após algumas voltas, Senna saiu do carro e disse aos engenheiros que, para um carro com aquela proposta, o chassi parecia “frágil”, como o de um carro de passeio comum.
A opinião do melhor piloto do mundo foi levada como uma ordem. A Honda enviou os protótipos para o lendário circuito de Nürburgring, na Alemanha, para um intensivo programa de reforço estrutural.
O processo era meticuloso: um piloto de testes dava uma volta e indicava os pontos de torção. Os engenheiros soldavam reforços de alumínio na hora e o carro voltava para a pista para nova avaliação. Esse ciclo se repetiu por meses, resultando em um aumento de mais de 50% na rigidez do chassi, com um ganho mínimo de peso. O toque de mestre de Senna havia transformado um ótimo carro em um supercarro lendário.
Ficha Técnica: Honda NSX (1990)
| Ficha Técnica | Honda NSX |
| Motor | 3.0 Litros V6, DOHC VTEC |
| Posição | Central-traseiro, transversal |
| Potência | ~274 cv @ 7.300 rpm |
| Torque | ~28,9 kgfm @ 5.400 rpm |
| Câmbio | Manual de 5 marchas |
| Tração | Traseira |
| 0-100 km/h | ~5,9 segundos |
| Limite de Rotações | 8.300 RPM |
| Chassi | Monocoque de alumínio |
| Peso | ~1.370 kg |
Conclusão: O Supercarro que Mudou Tudo
O Honda NSX chegou ao mercado e causou um terremoto. Ele provou que um supercarro podia ser, ao mesmo tempo, incrivelmente rápido e tecnologicamente avançado, mas também confiável, confortável e fácil de guiar no dia a dia.
Ele não foi apenas a resposta da Honda à Ferrari; foi um xeque-mate que elevou o padrão de qualidade, engenharia e usabilidade de toda a categoria, forçando as marcas europeias a correrem atrás do prejuízo. O NSX não foi apenas um carro, foi uma revolução sobre rodas, com um toque de genialidade do maior piloto do Brasil.






