Se você é brasileiro e gosta minimamente de carros, você já ouviu essa sigla: AP. O motor “Apê” da Volkswagen não é apenas uma peça de mecânica; é uma entidade cultural, o coração que impulsionou os carros mais icônicos da marca no Brasil por mais de duas décadas, incluindo lendas como o Gol GTI, o Passat Pointer e o Santana.
Até hoje, em 2026, o AP é cultuado em oficinas de preparação e clubes de entusiastas. Mas, com a tecnologia tendo avançado tanto, fica a pergunta: o motor AP é realmente bom?
A resposta é: sim, ele foi um dos motores mais robustos e versáteis do mundo. Mas, para os padrões modernos de eficiência, ele se tornou um dinossauro. Vamos analisar os dois lados dessa lenda.
Por que o Motor AP Virou um Mito?

O motor AP (sigla para Alta Performance no Brasil, derivada do projeto alemão Audi-Projekt) estreou aqui nos anos 70 com o Passat e ganhou fama nos anos 80 e 90, tornando-se o padrão da VW. Seu sucesso se deve a três pilares inquestionáveis:
1. Robustez “Tanque de Guerra”:
Este é o maior trunfo do AP. Ele é um motor superdimensionado, construído com um bloco de ferro fundido de uma simplicidade genial. Ele foi feito para aguentar desaforo. O AP tolera combustível de má qualidade, superaquece e continua funcionando, e aceita manutenção negligente por muito mais tempo que qualquer motor moderno.
2. Manutenção e Peças (O “Fusca” dos Motores):
O motor AP é o “arroz com feijão” da mecânica nacional. Por ter sido produzido por décadas em milhões de unidades, você encontra peças para ele em qualquer lugar do Brasil, da capital ao interior, a preços baixíssimos. Além disso, sua arquitetura simples (8 válvulas, sem comandos variáveis) faz com que qualquer mecânico saiba consertá-lo “de olhos fechados”.
3. O Rei da Preparação (O Sonho do Turbo):
Se o AP é amado, é principalmente por isso. O mesmo bloco de ferro superdimensionado que o torna um “tanque” também o torna o motor perfeito para preparação. Ele foi projetado para aguentar muito mais potência do que entregava originalmente.
Não é à toa que o “kit padaria” (um kit turbo básico) se tornou um clássico nacional. Com poucas modificações, é possível extrair 200, 300 ou 400 cavalos de um AP com relativa facilidade e confiabilidade, algo impensável para os motores de alumínio de 3 cilindros de hoje sem um investimento maciço.
O “Ruim”: Por que o Motor AP Morreu?
Se ele era tão bom, por que a Volkswagen o aposentou? Porque, em termos de engenharia moderna, ele se tornou obsoleto.
1. Consumo de Combustível (O “Beberrão”):
A mesma robustez e o projeto antigo cobravam seu preço na bomba. O motor AP é, por natureza, um motor “beberrão”. Sua eficiência na queima de combustível é muito baixa para os padrões atuais. Um Gol 1.8 AP sofria para fazer 8 km/l na cidade, enquanto um Polo 1.0 TSI moderno, com 128 cv (mais potente que o AP 2.0), faz 12 km/l com facilidade.
2. Aspereza e Tecnologia:
É um projeto dos anos 70. É um motor 8 válvulas, ruidoso, que vibra e entrega sua potência de forma áspera. Ele não tem a suavidade, o torque em baixa rotação ou a tecnologia (como comandos de válvulas variáveis ou injeção direta) dos motores atuais.
3. Emissões de Poluentes (O Motivo Oficial):
Este foi o prego final no caixão. O projeto antigo do motor AP simplesmente não conseguia mais atender às normas de emissão de poluentes cada vez mais rigorosas do Proconve (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores). Adaptá-lo se tornou caro e inviável. A VW, então, o substituiu pela família EA111 (usada no Gol G4, G5, Fox, etc.).
Ficha Técnica (O Auge): Volkswagen AP 2.0 8V (Gol GTI 1995)
| Ficha Técnica | VW AP 2000i |
| Motor | 2.0 Litros, 4 cilindros em linha, 8V |
| Posição | Dianteiro, longitudinal |
| Potência | 120 cv @ 5.600 rpm |
| Torque | 17,5 kgfm @ 3.000 rpm |
| Bloco | Ferro fundido |
| Cabeçote | Alumínio |
| Alimentação | Injeção Eletrônica Multiponto (FIC) |
O Motor AP é Bom?
Sim, o motor AP não é apenas bom; ele é lendário. Foi o melhor motor que o Brasil poderia ter durante as décadas de 80 e 90, oferecendo a robustez que nossas estradas e combustíveis exigiam.
No entanto, em 2026, seu tempo passou. Ele é um motor obsoleto em termos de eficiência, consumo e emissões.
O AP deixou de ser uma solução de engenharia para o dia a dia e se tornou o que os V8 “big block” são para os americanos: um ícone cultural, uma tela em branco para a preparação e o coração pulsante de todo um movimento de carros clássicos e esportivos que definiu a paixão do brasileiro por velocidade.






