O BYD Dolphin é, sem dúvida, o carro mais revolucionário do mercado brasileiro nos últimos anos. Ele quebrou a barreira do preço dos elétricos e forçou toda a indústria a se mexer. No entanto, como todo projeto de altíssimo volume e de uma marca nova no país, sua chegada em massa às ruas revelou alguns problemas crônicos e “dores do crescimento”.
Com base em milhares de unidades rodando no Brasil, um padrão de queixas recorrentes surgiu em grupos de proprietários e em registros no Reclame Aqui.
É importante frisar: o Dolphin é um projeto moderno e seu powertrain elétrico é considerado muito confiável. As principais queixas se concentram em componentes de conforto, acabamento e na tropicalização (adaptação ao Brasil).
1. A Suspensão “Seca” (O Problema Número 1)
Esta é, de longe, a maior e mais famosa reclamação sobre o Dolphin (especialmente os modelos 2023/2024).
- O Sintoma: Uma batida “seca” e desconfortável da suspensão, principalmente a traseira, ao passar em buracos, valetas ou lombadas. A sensação é de que o amortecedor dá “fim de curso” com muita facilidade.
- A Causa Real: O carro não foi totalmente “tropicalizado” para o asfalto brasileiro. A calibração original da suspensão foi projetada para as ruas mais lisas da China e Europa, sendo muito rígida para o nosso “rally” diário.
- A Solução: A BYD, ciente do problema, promoveu uma recalibração nos modelos mais novos (como o Plus e os 2025). Para os modelos 2023/2024, a troca dos amortecedores por opções do aftermarket (mercado de reposição) tem sido a solução para quem busca mais conforto, mas o ideal é testar o carro e ver se o nível de firmeza te incomoda.
2. O “Assobio” Metálico dos Freios
Um ruído que irrita profundamente os motoristas, especialmente no silêncio do carro elétrico.
- O Sintoma: Um assobio agudo, metálico e muito alto vindo dos freios, que aparece em baixíssimas velocidades (ao manobrar na garagem ou no “anda e para” do trânsito).
- A Causa Real: O composto original das pastilhas de freio. O ruído é uma característica do material usado, que, ao vibrar em baixa frequência, gera o assobio.
- A Solução: A BYD reconheceu o problema como uma “característica”, mas muitas concessionárias, sob garantia, realizaram a troca das pastilhas por outras de composto diferente ou aplicaram calços e lubrificantes específicos para eliminar o ruído.
3. Fragilidade dos Pneus Originais
Um problema diretamente ligado à má qualidade das nossas ruas.
- O Sintoma: Facilidade extrema em criar “bolhas” laterais ou até mesmo rasgar os pneus ao passar em buracos que, aparentemente, não eram tão graves.
- A Causa Real: Os pneus originais (Giti ou Linglong, dependendo do lote) são focados em baixa resistência à rolagem, para maximizar a autonomia da bateria. Eles tendem a ter um flanco (lateral) menos robusto que o ideal para o Brasil.
- A Solução: Ao trocar os pneus, optar por marcas de primeira linha com reputação de maior resistência (como Michelin, Pirelli, Continental), mesmo que isso possa “roubar” alguns poucos quilômetros de autonomia.
4. Bugs na Famosa Central Multimídia Giratória
A tela giratória é o “show” do carro, mas também uma fonte de pequenas frustrações.
- O Sintoma: Lentidão para iniciar o sistema, travamentos aleatórios, “apagões” (tela preta) e, principalmente, instabilidade na conexão com o Apple CarPlay ou Android Auto (que foi liberado via atualização).
- A Causa Real: Software (SOW) precisando de maturação. Como todo sistema complexo, as primeiras versões apresentaram bugs que vêm sendo corrigidos.
- A Solução: Manter o sistema sempre atualizado. A maioria das correções é feita via atualização “over-the-air” (OTA) ou na concessionária.
5. Demora na Entrega de Peças (O Pós-Venda)
Este não é um problema do carro em si, mas da experiência de ser dono de um BYD no Brasil hoje.
- O Sintoma: Em caso de colisão (mesmo uma batida leve), os proprietários relatam uma espera de semanas ou até meses por peças de reposição básicas, como para-choques, faróis ou para-lamas.
- A Causa Real: A BYD cresceu mais rápido que sua infraestrutura de logística de peças no Brasil. A demanda foi tão explosiva que a rede de concessionárias e o estoque de peças não acompanharam.
- A Solução: Paciência. A BYD está investindo bilhões na fábrica da Bahia e na expansão de seu centro de distribuição de peças para normalizar essa situação, mas a curto prazo, ainda é um risco a ser considerado.
Um Carro Revolucionário com “Dores do Crescimento”
O BYD Dolphin é um projeto excelente e o responsável pela revolução dos elétricos no Brasil. Seus problemas crônicos não são graves e não afetam a confiabilidade do powertrain elétrico, que é seu maior trunfo.
Tratam-se de “dores do crescimento” de uma marca que se tornou gigante do dia para a noite em um mercado complexo como o nosso. Ao comprar um usado, faça um test drive completo e verifique se os ruídos da suspensão e dos freios (se existirem) estão dentro do seu nível aceitável.






