O Fiat Doblò (fabricado no Brasil de 2001 a 2021) é o “canivete suíço” dos carros nacionais. Com sua carroceria alta, portas laterais corrediças e opção de 7 lugares (ou um enorme baú na versão Cargo), ele é o sonho de quem precisa de espaço.
No entanto, comprar um Doblò usado exige cuidado cirúrgico. Durante seus 20 anos de vida, ele usou motores excelentes (como o 1.8 GM e o 1.4 Fire) e motores que se tornaram “micos” históricos por falta de peças. Além disso, seu acabamento utilitário cobra o preço com o tempo.
Se você tem ou está de olho em um Doblò, esta é a lista definitiva do que você precisa inspecionar.
1. O “Mico” de Mercado: Motor 1.6 16V “Torque” (2001-2003)
Este é o alerta mais importante deste guia. As primeiras unidades do Doblò (2001 a 2003) saíram com um motor 1.6 16V importado da Argentina (chamado de Torque).
- O Sintoma: O carro funciona bem, até que precisa de uma peça simples de motor.
- A Causa Real: A Fiat encerrou a importação desse motor rapidamente. Ele se tornou um “órfão”.
- O Risco: Acha-se peça de desgaste básico (filtro, vela), mas peças internas (pistão, anéis, cabeçote) ou sensores específicos são impossíveis de achar ou custam uma fortuna.
- A Solução: NÃO COMPRE. Se você ver um Doblò 1.6 16V desses anos, fuja. Prefira o 1.3 Fire (fraco, mas fácil de manter) ou o 1.8 GM (robusto).
2. Portas Corrediças: Roldanas, Trilhos e Maçanetas
As portas laterais são o destaque do carro, mas também seu ponto fraco mecânico.
- O Sintoma: A porta fica pesada para abrir, faz barulho de “ferro com ferro”, trava no meio do caminho ou a maçaneta quebra na mão do passageiro.
- A Causa Real: O peso da porta é excessivo para o sistema de roldanas (rolamentos) originais, que se desgastam e quebram. A sujeira nos trilhos inferiores agrava o problema. As maçanetas externas, feitas de plástico, ressecam e quebram com o esforço extra de abrir uma porta emperrada.
- A Solução: Troca do kit de roldanas (reparo barato e recorrente) e limpeza/lubrificação constante dos trilhos.
3. Tubo de Distribuição de Água (Motor 1.8 GM)
Um clássico dos motores Família 1 da GM (que equiparam o Doblò 1.8 de 2003 a 2010).
- O Sintoma: Vazamento de água “escondido” atrás do motor, nível do reservatório baixando e risco de superaquecimento.
- A Causa Real: Existe um tubo de distribuição de água feito de plástico que passa por trás do motor, logo abaixo do coletor de admissão. Com o calor do bloco, esse plástico resseca, trinca e vaza.
- A Solução: A troca do tubo. A mão de obra é chata (o acesso é difícil), mas a peça é barata. Recomenda-se substituir por um tubo de metal ou alumínio, disponível no mercado paralelo, para resolver definitivamente.
4. Suspensão Traseira (Feixe de Molas) Barulhenta
O Doblò usa feixe de molas na traseira (como uma picape), o que é ótimo para carga, mas ruim para o conforto acústico.
- O Sintoma: Barulho de “nhec-nhec” ou rangido de cama velha vindo da traseira ao passar em lombadas ou valetas.
- A Causa Real: As buchas dos jumelos do feixe de molas ressecam ou entram sujeira entre as lâminas das molas.
- A Solução: Lubrificação (grafite) entre as molas e troca das buchas de borracha. É uma característica de projeto de veículo de carga.
5. Desempenho Sofrível (Versões 1.3 Fire 16V e 1.4 Fire 8V)
Não é um defeito de quebra, mas um erro de dimensionamento que gera queixas crônicas.
- O Sintoma: O carro não tem força para subir ladeiras carregado, exige reduções constantes e o consumo é alto (pois o motorista anda sempre com o pé no fundo).
- A Causa Real: O Doblò é um carro pesado (quase 1.300 kg vazio) e com a aerodinâmica de um tijolo. Os motores 1.3 e 1.4 Fire (que são ótimos no Uno ou Palio) sofrem para empurrar essa massa, gerando desgaste prematuro de embreagem.
- A Solução: Se você vai usar o carro carregado ou com 7 pessoas, dê preferência absoluta às versões 1.8 (GM ou E.torQ).
Conclusão: O Rei do Espaço, Mas Escolha o Motor Certo
O Fiat Doblò é insubstituível para quem precisa de espaço. Não há outro carro nessa faixa de preço que leve o que ele leva.
No entanto, a compra racional exige fugir do “mico” 1.6 16V argentino e ter consciência de que as portas laterais e a suspensão traseira exigirão manutenção periódica. Se possível, opte pelas versões 1.8 Adventure ou Essence, que entregam a força necessária para mover esse gigante familiar.






