O Mercedes-Benz L 1113 (produzido em seu auge de 1970 a 1987) é um caminhão que transcende a mecânica. É um símbolo de robustez, confiabilidade e do próprio transporte rodoviário brasileiro. Equipado com o lendário motor OM-352 (o “Mercedes 352”), ele é famoso por “não quebrar nunca”.
No entanto, estamos falando de um veículo de trabalho com, no mínimo, 40 anos de idade e, frequentemente, com milhões de quilômetros rodados. Seus “problemas crônicos” são, na verdade, os pontos de desgaste natural que todo mecânico experiente e proprietário de um 1113 já conhece de cor.
Se você tem ou está pensando em comprar esta lenda, esta é a lista definitiva do que você precisa inspecionar.
1. O “Câncer”: Ferrugem na Cabine
Este é, de longe, o problema crônico número um e o principal “deal-breaker” na hora de comprar um 1113.
- O Sintoma: Bolhas na pintura, pontos de ferrugem ou buracos literais na lataria.
- A Causa Real: O tratamento de chapa dos anos 70 e 80, combinado com décadas de trabalho sob sol e chuva. A água se acumula em pontos cegos e a ferrugem (câncer) começa a comer o aço.
- Onde Inspecionar: Os pontos mais críticos são os pés de cabine (embaixo dos tapetes), os degraus de acesso, as calhas do para-brisa (a ferrugem escorre para dentro do painel) e a base inferior das portas.
- A Solução: Funilaria pesada. Um 1113 com a cabine “podre” muitas vezes não compensa o reparo.
2. O Câmbio “Duro” e Arranhando (Desgaste dos Sincronizados)
A caixa de 5 marchas (G3/36 ou G3/40) é um “tanque”, mas sofre com o tempo.
- O Sintoma: Dificuldade extrema de engatar as marchas (especialmente a 1ª, 2ª e a ré) e “arranhadas” fortes durante as trocas, mesmo com o motorista fazendo a “dupla debreagem”.
- A Causa Real: Desgaste natural. Após milhões de quilômetros, os anéis sincronizadores (sincros) e os garfos internos da caixa estão gastos. Além disso, folgas gigantescas no trambulador (o conjunto de alavancas que liga a manopla ao câmbio) deixam a alavanca “boba”.
- A Solução: Um reparo completo da caixa de câmbio é caro. Muitas vezes, a troca do kit de reparo do trambulador (barato) já melhora muito a precisão dos engates.
3. Freios “Fracos” (Sistema Original)
Esta é uma queixa de segurança crônica para quem está acostumado com caminhões modernos.
- O Sintoma: O caminhão “não para” como um caminhão novo. O pedal é duro e a capacidade de frenagem é limitada, especialmente com carga máxima.
- A Causa Real: O sistema de freios original do 1113 era o hidrovácuo (a “cuíca a óleo”) ou, em alguns, um sistema misto ar/óleo. Ambos são muito inferiores ao sistema “freio a ar” (pneumático) total que se tornou padrão hoje.
- A Solução: A solução mais comum e segura, que 90% dos 1113 que rodam hoje já fizeram, é a adaptação para um sistema “ar-ar” (freio a ar completo, com cuícas pneumáticas). Se você está comprando um 1113, verifique se ele já foi “convertido”.
4. O “Marcador de Território” (Vazamentos Crônicos de Óleo)
Se um 1113 não está vazando óleo, provavelmente está sem óleo.
- O Sintoma: Manchas de óleo constantes no chão da garagem.
- A Causa Real: Idade. Juntas, vedações e retentores de borracha ressecam após 40 anos de calor. Os pontos mais clássicos de vazamento são a junta da tampa de válvulas, o retentor do volante (entre o motor e o câmbio) e os cubos das rodas traseiras (vazando óleo do diferencial).
- A Solução: É uma manutenção recorrente. A troca das juntas e retentores resolve o problema, mas eles voltarão a vazar com o tempo.
5. O Motor “Cansado” (Folga e Fumaça)
O motor OM-352 (5 cilindros) é uma lenda, mas não é imortal.
- O Sintoma: Fumaça preta ou azulada (indicando queima de óleo) excessiva, dificuldade de pegar na partida a frio (o motor “bate” antes de ligar) e falta de força em subidas.
- A Causa Real: Desgaste natural. Após milhões de quilômetros, o motor apresenta folga nos anéis de pistão, desgaste das camisas e bicos injetores desregulados.
- A Solução: Este é o reparo mais caro do caminhão: uma retífica completa do motor. Ao comprar um usado, a “saúde” do motor (se ele “fuma” ou “bate”) é o fator decisivo para o preço.
Conclusão: Um “Tanque” Para Quem Sabe Cuidar
O Mercedes-Benz L 1113 é, e sempre será, um dos caminhões mais robustos já feitos. Seus “problemas crônicos” não são falhas de projeto, mas sim o desgaste natural de um veículo de trabalho extremo com décadas de história.
Ele não é um caminhão para amadores; é um veículo que exige um dono que entenda de mecânica. Se for bem cuidado, continuará sendo o “Rei da Estrada” por mais 40 anos.






