O Scania L 111 “Jacaré” (produzido em seu auge de 1969 a 1981) é um caminhão que transcende a mecânica. É um ícone cultural, o “Rei da Estrada” que definiu o transporte de cargas no Brasil por uma geração inteira. Equipado com o lendário motor DS11 (11 litros, 6 cilindros em linha), ele é famoso por sua força e durabilidade.
No entanto, estamos falando de um veículo de trabalho com, no mínimo, 45 anos de idade e, frequentemente, com milhões de quilômetros rodados. Seus “problemas crônicos” são, na verdade, os pontos de desgaste natural que todo mecânico experiente e proprietário de um “Jacaré” já conhece de cor.
Se você tem ou está pensando em comprar esta lenda, esta é la lista definitiva do que você precisa inspecionar.
1. O “Câncer”: Ferrugem na Cabine e no Chassi
Este é, de longe, o problema crônico número um e o principal “deal-breaker” na hora de comprar um Jacaré.
- O Sintoma: Bolhas na pintura, pontos de ferrugem ou buracos literais na lataria e no chassi.
- A Causa Real: O tratamento de chapa dos anos 70 e o acúmulo de umidade e sujeira em pontos cegos ao longo de 50 anos.
- Onde Inspecionar: Os pontos mais críticos são os pés de cabine (embaixo dos tapetes), as longarinas do chassi (especialmente a “alma” e as travessas), as calhas do para-brisa (a ferrugem escorre para dentro do painel) e a base inferior das portas.
- A Solução: Funilaria pesada. Um 111 com a cabine “podre” ou o chassi trincado/corroído muitas vezes não compensa o reparo.
2. O Freio “Fraco” (Sistema Hidrovácuo/Misto)
Esta é uma queixa de segurança crônica para quem está acostumado com caminhões modernos.
- O Sintoma: O caminhão “não para” como um caminhão novo. O pedal é duro e a capacidade de frenagem é limitada, especialmente com carga máxima.
- A Causa Real: O sistema de freios original do 110/111 era o hidrovácuo (a “cuíca a óleo”) ou, em alguns, um sistema misto ar/óleo. Ambos são muito inferiores ao sistema “freio a ar” (pneumático) total que se tornou padrão no 112/113.
- A Solução: A solução mais comum e segura, que 90% dos “Jacarés” que rodam hoje já fizeram, é a adaptação para um sistema “ar-ar” (freio a ar completo, com cuícas pneumáticas). Se você está comprando um, verifique se ele já foi “convertido”.
3. O Câmbio “Seco” e a Alavanca “Boba”
A caixa de 10 marchas (5+2) da Scania é um “tanque”, mas sofre com o tempo e o uso.
- O Sintoma: Dificuldade extrema de engatar as marchas (especialmente a 1ª, 2ª e a ré) e “arranhadas” fortes durante as trocas, mesmo com o motorista fazendo a “dupla debreagem”.
- A Causa Real: Desgaste natural. Após milhões de quilômetros, os anéis sincronizadores (nos modelos que tinham) e os garfos internos da caixa estão gastos. Além disso, a folga no trambulador (o conjunto de alavancas que liga a manopla ao câmbio) é crônica, deixando a alavanca “boba”.
- A Solução: O reparo completo da caixa de câmbio é caro. Muitas vezes, a troca do kit de reparo do trambulador (barato) já melhora muito a precisão dos engates.
4. O “Marcador de Território” (Vazamentos Crônicos)
Se um 111 não está vazando óleo ou diesel, provavelmente está sem.
- O Sintoma: Manchas de óleo e diesel constantes no chão da garagem.
- A Causa Real: Idade. Juntas, vedações e retentores de borracha ressecam após 50 anos de calor. Os pontos mais clássicos de vazamento são a junta da tampa de válvulas, o retentor do volante (entre o motor e o câmbio), os cubos das rodas traseiras (vazando óleo do diferencial) e a bomba injetora (vazando diesel).
- A Solução: É uma manutenção recorrente. A troca das juntas e retentores resolve o problema temporariamente.
5. Parte Elétrica “Cansada” (Chicote Original 24V)
Um caminhão com 50 anos de estrada raramente está com o chicote elétrico original 100% intacto.
- O Sintoma: Luzes fracas, “fantasmas” no painel, dificuldade na partida (mesmo com baterias boas).
- A Causa Real: O chicote (fiação) original de 24V está ressecado, oxidado e, o pior, “remendado” com dezenas de “gambiarras” ao longo de 50 anos para instalar rádios, climatizadores ou faróis extras.
- A Solução: Uma revisão elétrica completa feita por um profissional de confiança, muitas vezes exigindo a troca de seções inteiras do chicote.
Conclusão: Um “Tanque de Guerra” Para Quem Sabe Cuidar
O Scania L 111 “Jacaré” é, e sempre será, um dos caminhões mais robustos já feitos. Seus “problemas crônicos” não são falhas de projeto, mas sim o desgaste natural de um veículo de trabalho extremo com décadas de história.
Ele não é um caminhão para amadores; é um veículo que exige um dono que entenda de mecânica. Se for bem cuidado (e se já tiver sido atualizado com freios a ar), continuará sendo o “Rei da Estrada” por mais 50 anos.






