O Volkswagen Gol G4 (fabricado de 2005 a 2014) é, para muitos, a definição de “carro popular” no Brasil. Sua simplicidade mecânica, robustez e o baixíssimo custo de manutenção o tornaram um verdadeiro “tanque de guerra” e um fenômeno de vendas no mercado de usados.
No entanto, essa simplicidade, que foi o foco do projeto, também trouxe uma série de problemas crônicos e queixas que se tornaram famosas entre os proprietários.
A boa notícia é que quase todos são conhecidos e têm solução. Se você tem ou está pensando em comprar um Gol G4, saber onde procurar por esses defeitos é fundamental.
1. O Pesadelo do Motor EA111: Borra e Barulho de Tucho
Este é, de longe, o problema mais grave e que exige maior autoridade técnica para ser explicado. O motor EA111 (1.0 ou 1.6) é excelente, mas ele tem um inimigo mortal: o óleo errado.
- O Sintoma: O famoso “tec-tec-tec” na parte de cima do motor, especialmente na partida a frio, que parece uma máquina de costura. Em casos graves, há alto consumo de óleo e perda de potência.
- A Causa (O Erro Fatal): O projeto do motor EA111 exige o uso de óleos mais finos (como o 5W-40 ou o 15W-40, ambos com a norma VW 502 00). No entanto, muitos proprietários, por economia ou por conselho de mecânicos desatualizados, utilizam o óleo mineral 20W-50.
- O Desastre: O óleo 20W-50 é grosso demais e não consegue lubrificar os tuchos hidráulicos na partida a frio, causando o “tec-tec-tec” e um desgaste prematuro. Pior: ele carboniza mais facilmente, criando a temida borra (uma graxa preta) que entope os dutos de óleo do motor, levando à “fome de óleo” e, eventualmente, à fundição do motor.
- A Solução: Ao comprar um G4, a primeira coisa a se fazer é remover a tampa de óleo e verificar com uma lanterna se há sinais de borra. Se houver, fuja. Se estiver limpo, use exclusivamente o óleo 5W-40 ou 15W-40 (com norma VW 502 00) e troque rigorosamente a cada 10.000 km ou 6 meses.
2. O “Show de Plástico”: Ruídos Internos Crônicos
O Gol G4 foi um projeto focado na extrema redução de custos. Se o G3 era conhecido pelo bom acabamento, o G4 foi o oposto, o que o tornou o “rei dos grilos”.
- O Sintoma: Uma verdadeira “escola de samba” vinda do painel, dos forros de porta e da tampa do porta-malas (especialmente no modelo de 2 portas).
- A Causa: Todo o acabamento interno é feito de plástico rígido (duro), com encaixes que geram atrito e vibram com a trepidação natural do motor e do asfalto brasileiro.
- A Solução: Paciência e “caça-grilos”. A solução é desmontar as peças plásticas e aplicar fitas de feltro ou espuma nos pontos de contato para eliminar a vibração.
3. Falha Crônica na Bobina de Ignição
Este é um defeito elétrico clássico da família EA111 que equipa o Gol G4.
- O Sintoma: O carro falha subitamente, perde a força (fica “xôxo”), começa a “pipocar” e a luz da injeção acende no painel. O carro passa a funcionar com apenas 3 cilindros.
- A Causa: A bobina de ignição, que é uma peça única que distribui a centelha para as quatro velas, é conhecida por trincar ou queimar internamente, especialmente após os 80.000 km.
- A Solução: É um reparo relativamente simples e barato. Consiste na troca da bobina e, obrigatoriamente, dos cabos de vela e das próprias velas.
4. Problemas no Sistema de Arrefecimento
O sistema de arrefecimento do motor EA111 exige atenção constante, pois é um ponto comum de falhas que podem levar a um superaquecimento (e a um prejuízo ainda maior com o cabeçote).
- O Sintoma: Vazamentos de água visíveis no chão, cheiro de aditivo queimado, ou o ponteiro da temperatura subindo perigosamente.
- A Causa: Os culpados mais comuns são os componentes de plástico do sistema, que ressecam e trincam com o tempo. As peças que mais falham são a carcaça da válvula termostática, os flanges (conexões de mangueira) do motor e, em alguns casos, a própria bomba d’água.
- A Solução: Manutenção preventiva. Nunca rode com água de torneira (use sempre aditivo) e, ao primeiro sinal de vazamento, procure uma oficina para inspecionar todo o sistema de mangueiras e conexões de plástico.
Conclusão: Um “Tanque de Guerra” que Exige o Básico
O Volkswagen Gol G4 não ganhou sua fama por acaso. Ele é, de fato, um carro robusto e um dos mais baratos de se manter no Brasil.
No entanto, sua robustez depende diretamente de uma manutenção básica bem-feita. Ele é um carro que não tolera economia no óleo do motor e que exige um olhar atento para o sistema de arrefecimento.
Ao comprar um usado, verificar se o antigo dono usava o óleo correto é a principal lição de casa. Se sim, você terá em mãos um dos carros mais confiáveis já feitos no Brasil.






