O Scania 113H (fabricado no auge de 1991 a 1998) não é apenas um caminhão; é um ícone cultural, o “Rei da Estrada” que definiu o transporte de cargas no Brasil. Com seu ronco inconfundível e sua fama de “tanque de guerra”, ele ainda é um veículo extremamente procurado e valorizado no mercado de usados.
No entanto, estamos falando de um projeto com mais de 30 anos de idade e, na maioria dos casos, com milhões de quilômetros rodados em condições severas. Se você tem ou está pensando em comprar um 113H, saiba que seus “problemas crônicos” não são defeitos de fabricação, mas sim pontos de desgaste natural que exigem atenção constante.
1. O “Melado” no Intercooler (Motor DSC11 360cv)
Este é, talvez, o ponto de atenção mais famoso do 113H, especialmente na cobiçada versão de 360 cavalos.
- O Sintoma: Perda de potência, fumaça preta excessiva e o motor visivelmente “melado” de óleo na região do intercooler (o trocador de calor ar-ar).
- A Causa Real: O intercooler deste motor, após décadas de uso, é um ponto clássico de falha. As colmeias de refrigeração podem desenvolver microfissuras, ou as mangueiras de pressurização ressecam e trincam, causando um vazamento de pressão do turbo. Como o sistema de ventilação do cárter joga vapor de óleo na admissão, esse vazamento de pressão “empurra” o óleo para fora, melando o motor.
- A Solução: Revisão e troca das mangueiras de pressurização ou, em casos mais graves, a substituição da colmeia do intercooler.
2. Câmbio “Arranhando” (Caixa 10 Marchas)
A caixa de 10 marchas da Scania (GR-871 ou similar) é lendária pela robustez, mas não é imune ao desgaste extremo.
- O Sintoma: Dificuldade de engatar as marchas (especialmente as mais baixas ou a ré) e “arranhadas” fortes durante as trocas, mesmo com o motorista pisando corretamente na embreagem (dupla debreagem).
- A Causa Real: Desgaste natural, após milhões de quilômetros, dos anéis sincronizadores e dos garfos internos da caixa. Em casos mais simples, o problema pode ser apenas uma folga excessiva no trambulador (o conjunto de alavancas que liga a manopla ao câmbio).
- A Solução: O reparo completo do câmbio é um serviço caro. Antes disso, um mecânico experiente deve verificar e, se necessário, trocar o kit de reparo do trambulador, que é muito mais barato e pode resolver a folga da alavanca.
3. Vazamentos de Óleo (Especialmente no Diferencial)
Se você ver um 113H estacionado, é muito provável que haja uma pequena mancha de óleo no chão.
- O Sintoma: “Melado” de óleo constante no motor (tampa de válvulas, retentor dianteiro) e, o mais clássico, vazamento nos cubos traseiros.
- A Causa Real: Idade. Juntas, vedações e retentores de borracha ressecam após 30 anos de calor e uso. O ponto mais famoso de falha é o retentor do pinhão (no diferencial) e os retentores dos cubos das rodas traseiras, que vazam óleo do diferencial sobre as rodas.
- A Solução: Troca preventiva ou corretiva dos retentores e juntas. É uma manutenção recorrente.
4. Ferrugem na Cabine (O “Câncer”)
A cabine “Advanced” do 113H foi um marco em conforto, mas seu tratamento de chapa era dos anos 80/90. A ferrugem é uma inimiga constante.
- O Sintoma: Bolhas na pintura, pontos de ferrugem visíveis ou até mesmo buracos.
- A Causa Real: A idade e o acúmulo de umidade em pontos cegos. Os locais mais crônicos para procurar ferrugem em um 113H são os pés de cabine (embaixo do tapete), os degraus de acesso, as calhas do para-brisa e a base inferior das portas.
- A Solução: Funilaria e pintura. Ao comprar um 113H usado, inspecionar a estrutura da cabine em busca de ferrugem é mais importante do que olhar o motor.
5. Parte Elétrica “Cansada” (O Chicote Original)
Um caminhão com 30 anos de estrada raramente está com o chicote elétrico original 100% intacto.
- O Sintoma: Luzes que falham (faroletes, lanternas), painel “enlouquecendo” (ponteiros que param de funcionar), falhas intermitentes.
- A Causa Real: O chicote (fiação) original está velho. Os fios ressecaram, os conectores oxidaram e, o pior, o caminhão passou por dezenas de “eletricistas de posto” que fizeram “gambiarras” e emendas malfeitas ao longo dos anos para instalar rádios, climatizadores ou faróis extras.
- A Solução: Uma revisão elétrica completa feita por um profissional de confiança, muitas vezes exigindo a troca de seções inteiras do chicote.
Conclusão: Um “Tanque de Guerra” Para Quem Sabe Cuidar
O Scania 113H é, e sempre será, um dos caminhões mais robustos já feitos. Seus “problemas crônicos” não são falhas de projeto, mas sim o desgaste natural de um veículo de trabalho extremo com três décadas de história.
Ele não é um caminhão para amadores; é um veículo para quem entende e respeita sua mecânica. Se for bem cuidado, continuará sendo o “Rei da Estrada” por mais 30 anos.






