O Ford Escort (1987–1992), conhecido mundialmente como Mk4 (mas chamado de segunda geração no Brasil), marcou uma das fases mais interessantes e polêmicas da indústria nacional: a era Autolatina (a joint-venture entre Ford e Volkswagen). Com um visual reestilizado (frente lisa e para-choques envolventes), ele ganhou o cobiçado motor AP da VW nas versões mais caras, enquanto mantinha o valente CHT nas de entrada.
Hoje, modelos como o XR3 1.8 ou as séries especiais (como o Escort Guarujá) são disputados a tapa por colecionadores. No entanto, por baixo da carroceria nostálgica, o Mk4 herdou os mesmos pecados de projeto do seu antecessor e ganhou algumas peculiaridades próprias da mistura com a mecânica Volkswagen. Se você quer investir nesse clássico, conheça os problemas crônicos que te aguardam.
1. A Herança Maldita: A Caixa de Fusíveis
A Ford reestilizou o carro, mudou motores, mas cometeu o grave erro de manter o projeto da central elétrica idêntico ao da geração anterior.
- O Defeito Contínuo: A caixa de fusíveis continua localizada no cofre do motor, perto da churrasqueira. As trilhas da placa de circuito impresso interna não suportam a amperagem original do carro (especialmente da ventoinha do radiador e dos faróis).
- O Sintoma: Com o uso, a placa esquenta, derrete o acrílico da caixa e fecha curto-circuito. Você pode perder a iluminação do painel à noite, os faróis ou ver a temperatura do motor subir para o vermelho porque a ventoinha simplesmente parou.
- A Solução Oculta: Restauradores experientes não apenas trocam a caixa por uma paralela (já que originais íntegras são quase lendas), mas instalam relés auxiliares independentes para os faróis e para a ventoinha, tirando o peso elétrico da frágil placa original.
2. O Fantasma da Ferrugem: Assoalho e Bateria
O tratamento anticorrosivo da virada da década de 80 para 90 ainda era o calcanhar de Aquiles das montadoras brasileiras. O Escort Mk4 tem pontos de apodrecimento estrutural que podem condenar a restauração.
- Bandeja da Bateria: Localizada logo acima da parede corta-fogo do lado do passageiro, a bandeja apodrece devido ao vazamento crônico de ácido das baterias antigas e ao acúmulo de água.
- O Efeito Cascata: Quando essa chapa perfura, a água da chuva escorre direto para dentro da cabine (atrás do porta-luvas). O carpete e o feltro fonoabsorvente encharcam e nunca secam, fazendo com que o assoalho do lado do passageiro apodreça de dentro para fora. Jamais compre um Escort sem levantar os tapetes para verificar o fundo metálico.
3. Suspensão Traseira “Abrindo as Pernas”
Assim como o modelo mais antigo, o Escort 87-92 manteve a avançada (para a época) suspensão traseira independente. A estabilidade em curvas é excelente, mas o peso dos anos é implacável.
- Desgaste das Buchas e Estrutura: As buchas dos braços tensores e o próprio local de fixação no monobloco sofrem muita fadiga, especialmente nas versões mais potentes (como o XR3 1.8 AP) que convidavam a uma tocada mais agressiva.
- Cambagem Negativa: A traseira cede e as rodas ficam visivelmente inclinadas para dentro na parte superior (comendo a borda interna dos pneus). O reparo exige mecânicos das antigas que saibam instalar calços corretivos ou, em casos mais graves de trinca, realizar o realinhamento da carroceria no ciborgue (mesa alinhadora).
4. O Trambulador e a Mistura Autolatina
A adoção dos motores VW AP (Alta Performance) de 1.8 litro a partir de 1989 transformou o Escort em um canhão, mas a união do motor alemão com o cofre americano exigiu adaptações.
- Câmbio MQ e Engates: A Ford passou a utilizar a excelente transmissão manual da Volkswagen, mas o sistema de varão/trambulador (que liga a alavanca da cabine até a caixa no cofre) costuma desgastar suas buchas de plástico rapidamente.
- O Sintoma: A alavanca de câmbio fica extremamente boba e frouxa. Engatar a primeira ou a marcha à ré exige um “jeitinho” ou força excessiva, e muitas vezes a terceira marcha entra no lugar da primeira. A troca do kit de buchas do trambulador é barata, mas crônica.
5. Rachaduras no Painel (Tabelier)
A variação de temperatura no Brasil castiga impiedosamente os plásticos internos da linha Ford dessa época.
- Ressecamento: O plástico do painel principal (tabelier) não possui proteção UV adequada. Deixar o carro exposto ao sol causa rachaduras profundas que partem dos difusores de ar e se espalham em direção ao quadro de instrumentos.
- Peças de Reposição: Não se fabrica mais essa peça. Encontrar um tabelier de Escort Mk4 sem trincas em desmanches é tão raro quanto achar agulha no palheiro. O custo de restauração (forração em vinil imitando a textura original) é elevado.
Conclusão: Escolha Pela Estrutura
O Ford Escort (1987–1992) representa o auge dos hatches médios no Brasil e a controversa era Autolatina. Do ponto de vista mecânico, é um carro blindado: tanto o motor CHT (focado em economia) quanto o motor AP (focado em desempenho) têm peças sobrando nas prateleiras a preços muito baixos.
No entanto, o verdadeiro custo de ter um Escort dessa geração está na funilaria e na parte elétrica. Deixe a paixão de lado ao ver uma pintura brilhando e investigue a fundo o assoalho, as longarinas e o estado do chicote principal perto da caixa de fusíveis. Resolver um motor AP fumando custa barato; refazer o assoalho de um Escort apodrecido custa meses de paciência e muito dinheiro.






