Com a apuração do primeiro turno concluída e a confirmação de que a disputa presidencial caminha para um segundo turno decisivo, o preço dos combustíveis volta ao centro da arena política. O eleitor que vai às urnas carrega no bolso as marcas deixadas pelos mandatos de Jair Bolsonaro (2019–2022) — agora representado na chapa de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL) — e de Luiz Inácio Lula da Silva (2023–2026).
Afinal, qual dos dois presidentes deixou o combustível mais caro? A resposta exata da série histórica da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) não é preto no branco: quem dependeu de diesel viveu o pior momento sob Bolsonaro, enquanto o motorista de carro a gasolina viu o preço subir com mais intensidade na média do governo Lula.
Abaixo, destrinchamos a matemática dos números nominais, a correção pela inflação e as manobras fiscais adotadas pelos dois lados.
1. O Veredito dos Números: Quem Cobrou Mais nas Bombas?
Para entender o impacto real, a medição oficial compara a primeira e a última semana de cada mandato (com dados consolidados até a véspera da votação de outubro de 2026).
| Combustível | Início Bolsonaro (Jan/19) | Fim Bolsonaro (Dez/22) | Variação Nominal | Início Lula (Jan/23) | Atual (Out/26) | Variação Nominal |
| Gasolina Comum | R$ 4,33 | R$ 4,96 | +14,5% | R$ 5,12 | R$ 6,55 | +27,9% |
| Etanol Hidratado | R$ 2,83 | R$ 3,87 | +36,7% | R$ 4,01 | R$ 4,13 | +3,0% |
| Diesel S10 | R$ 3,55 | R$ 6,38 | +79,8% | R$ 6,51 | R$ 7,35 | +12,9% |
O Ajuste da Inflação (IPCA)
Os números nominais não contam toda a história sem o custo de vida do período. A inflação acumulada pelo IPCA foi de 26,9% nos quatro anos de Bolsonaro e de 17,9% no período de Lula:
- No Diesel S10: O caminhoneiro e o transporte de carga sofreram muito mais na gestão Bolsonaro, com uma disparada real de 41,7% acima da inflação. Já no governo Lula, o diesel recuou 4,2% em termos reais (descontado o IPCA).
- Na Gasolina Comum: O cenário se inverte. No governo Bolsonaro, a gasolina caiu 9,8% em termos reais ao final do mandato. Já sob Lula, o combustível fóssil registrou um aumento real de 8,5%.
- O Pico Absoluto Histórico: O recorde de preço nominal mais alto já visto nas bombas brasileiras pertence à gestão Bolsonaro. Em junho de 2022, impulsionada pelo estouro da Guerra na Ucrânia, a gasolina bateu a média nacional de R$ 7,39, e o diesel S10 atingiu inacreditáveis R$ 7,68.
2. A Era Jair Bolsonaro (2019–2022): O Choque do Petróleo e a “PEC Kamikaze”

A gestão de Jair Bolsonaro foi marcada por extremos de mercado e intervenções institucionais diretas na Petrobras.
- A Queda e a Explosão: No início da pandemia (maio de 2020), o esvaziamento das ruas fez a gasolina despencar para menos de R$ 4,00. Contudo, a retomada econômica global e o início da invasão russa na Ucrânia geraram uma crise sem precedentes no barril de petróleo tipo Brent.
- Instabilidade na Petrobras: Diante das altas sucessivas do PPI (Preço de Paridade de Importação), Bolsonaro pressionou abertamente a cúpula da estatal, demitindo executivos e acumulando quatro presidentes na Petrobras ao longo de quatro anos.
- A Virada Eleitoral de 2022: A três meses das eleições daquele ano, o governo sancionou o teto do ICMS estadual e aprovou a chamada “PEC Kamikaze”, zerando tributos federais (PIS/Cofins e Cide) sobre combustíveis sob estado de emergência. A gasolina despencou para cerca de R$ 4,80 no primeiro turno, mas a fatura foi empurrada para a frente: o STF determinou uma compensação de R$ 27 bilhões da União aos Estados, paga já no governo seguinte.
3. A Era Lula (2023–2026): Fim do PPI, Reoneração e Crise no Oriente Médio

O terceiro mandato de Lula adotou uma postura oposta na tributação, mas voltou a enfrentar turbulências geopolíticas de grande porte.
- A Volta dos Impostos e Fim do PPI: Logo no início de 2023, o governo reonerou a gasolina para equilibrar as contas públicas, gerando aumentos imediatos. Em maio daquele ano, a Petrobras extinguiu oficialmente a paridade internacional estrita (PPI), priorizando custos nacionais de refino.
- A Crise do Estreito de Ormuz (2026): O equilíbrio ruiu no início de 2026, quando o conflito militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã estrangulou a navegação no Estreito de Ormuz — gargalo por onde passa 20% do petróleo bruto do planeta. Em pouco mais de um mês, o diesel saltou quase 25%.
- Subsídios Pré-Eleição: Para segurar a disparada às vésperas da votação, a gestão Lula aplicou subvenções pesadas: instituiu um subsídio de R$ 2,12 por litro de diesel para refinarias e importadores (ao custo de cerca de R$ 5 bilhões mensais aos cofres públicos) e cortou tributos de gasolina e etanol até o final de outubro, data limite do segundo turno.
4. Rumo ao Segundo Turno: O Que Prometem os Candidatos?
A decisão de voto nas próximas semanas colocará frente a frente duas visões radicalmente distintas para quem dirige no Brasil:
O Plano de Flávio Bolsonaro (PL)
Representando a base de Jair Bolsonaro, Flávio estrutura sua campanha na promessa de desoneração direta e choque de oferta:
- Redução da carga tributária sobre energia e combustíveis.
- Revisão da alíquota de consumo da reforma tributária para impedir que o imposto chegue a patamares próximos de 30%.
- Manutenção do modelo flexível e desregulamentado para motoristas de aplicativo (sem regime CLT).
- Abertura para privatizações pontuais e liberação de novas frentes de exploração de óleo e gás, incluindo o método de fraturamento hidráulico (fracking).
O Plano de Lula (PT)
Buscando a reeleição, Lula foca em crédito público, transição energética e presença estatal:
- Retorno da Petrobras ao segmento de distribuição de combustíveis (contornando os limites jurídicos da venda da antiga BR Distribuidora).
- Continuidade de programas de incentivo como o Mover (R$ 20 bilhões em créditos para descarbonização) e ampliação do IPI zero para compactos ecológicos.
- Manutenção do fim da autoescola obrigatória para baratear a CNH, além de linhas de crédito subsidiadas para renovação de frota de táxis e carros de aplicativo com proteção previdenciária.
- Restabelecimento pleno do imposto de importação sobre veículos elétricos e híbridos chineses para obrigar a instalação de montadoras em solo nacional.
Ambos os projetos têm prós e contras técnicos bem delineados. Caberá ao motorista brasileiro pesar na balança quem melhor protege o equilíbrio entre a inflação dos transportes e a responsabilidade das contas públicas pelos próximos quatro anos.





