Se o preço da gasolina é o que dói no dia a dia, o preço do carro zero quilômetro virou o grande pesadelo do brasileiro a longo prazo. Com a definição do 2º turno das eleições presidenciais de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) — que representa politicamente o legado e a continuidade do governo de seu pai, Jair Bolsonaro —, o futuro da indústria automotiva e o bolso do motorista estão em jogo.
Assim como ocorreu com os combustíveis, o mercado de veículos sofreu baques mundiais históricos e intervenções diretas de ambos os governos ao longo dos últimos anos. Abaixo, dissecamos o que aconteceu com o preço dos carros na gestão de cada grupo político e o que eles prometem para tentar baratear a sua garagem nos próximos quatro anos.
1. A Evolução dos Preços: Quem Encareceu o Carro Zero?
Para entender a escalada de preços, é preciso separar as políticas de governo das crises globais inevitáveis que atingiram as duas gestões. O fato é que o “carro popular” subiu vertiginosamente nos dois mandatos.
- A Era Bolsonaro (2019–2022) e a Crise dos Chips: Durante o governo de Jair Bolsonaro, o mercado automotivo global sofreu o maior colapso logístico do século. A pandemia paralisou fábricas e gerou a “crise dos semicondutores”. Sem chips, faltou carro no pátio. Pela lei da oferta e demanda, os preços explodiram. Modelos de entrada que custavam cerca de R$ 45 mil em 2019 bateram a casa dos R$ 70 mil no final de 2022. Para tentar amortecer a alta, Bolsonaro aplicou dois cortes lineares no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos veículos.
- A Era Lula (2023–2026) e o Custo Brasil: Lula assumiu com os preços já nas alturas e lançou, em meados de 2023, um programa de descontos temporários patrocinados pelo governo (abatimentos de até R$ 8 mil) para tentar reviver o “carro popular”. O alívio durou pouco tempo. Hoje, em outubro de 2026, é praticamente impossível achar um hatch de entrada por menos de R$ 85 mil nas concessionárias, impulsionado pela inflação acumulada, exigências maiores de segurança e a retomada das cargas tributárias integrais.
2. A Guerra dos Carros Elétricos e a Invasão Chinesa
Um divisor de águas entre as duas gestões é a forma como lidaram com a importação de novas tecnologias.
- O Livre Mercado de Bolsonaro: Durante a gestão Bolsonaro, o imposto de importação para carros 100% elétricos foi mantido zerado. Isso facilitou a vida dos primeiros compradores de veículos premium, mas, no final de seu mandato, abriu as portas para que marcas chinesas como BYD e GWM começassem a inundar o mercado nacional com elétricos mais acessíveis, incomodando as montadoras tradicionais instaladas no Brasil.
- O Protecionismo de Lula: Pressionado pelas montadoras com fábricas no Brasil (como Fiat, VW e GM), o governo Lula retomou a cobrança gradativa do Imposto de Importação sobre elétricos e híbridos a partir de 2024. A alíquota atingirá os 35% de teto. A estratégia visou forçar os chineses a construírem fábricas no Brasil em vez de apenas trazerem carros prontos — o que de fato acelerou as obras da BYD na Bahia e da GWM em São Paulo, mas encareceu o carro elétrico para o consumidor final de imediato.
3. O Que Promete Lula (PT) Para o 2º Turno?
O atual presidente busca a reeleição apostando forte no incentivo à indústria local, no crédito e na desburocratização da habilitação. Suas principais propostas para o setor são:
- Programa Mover: Continuidade e ampliação do programa que distribui R$ 20 bilhões em incentivos fiscais para montadoras que desenvolverem motores flex híbridos e veículos sustentáveis em solo nacional.
- IPI Zero: Promessa de isenção total de IPI para compactos nacionais que cumprirem rígidas metas de baixa emissão de poluentes.
- Crédito e Aplicativos: Criação de linhas de financiamento subsidiadas para motoristas de aplicativos e taxistas renovarem suas frotas, além da tentativa de incluir a categoria na proteção previdenciária.
- Revolução na CNH: O plano de governo reforça a promessa de acabar com a obrigatoriedade da autoescola para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação, barateando radicalmente o processo de se tornar motorista.
4. O Que Promete Flávio Bolsonaro (PL) Para o 2º Turno?
Representando a oposição e a continuidade das políticas de direita de seu pai, o senador Flávio Bolsonaro foca em desoneração tributária, livre mercado e corte de amarras estatais:
- Corte no Imposto de Consumo: A principal promessa é revisar o texto da recém-aprovada Reforma Tributária para garantir que o novo imposto sobre o consumo (que incidirá fortemente sobre os veículos novos) seja reduzido e não atinja a temida faixa dos 30%.
- Redução da Carga Global: Retomada da política de Jair Bolsonaro de promover cortes de IPI para estimular o setor industrial e aquecer as vendas, sem exigir necessariamente metas atreladas à eletrificação.
- Motoristas de Aplicativo Livres: Manutenção do atual modelo de trabalho flexível para motoristas de Uber e 99, sendo frontalmente contra regulamentações que encareçam o custo do serviço ou exijam vínculos aos moldes da CLT.
- Desburocratização do Trânsito: Continuidade de medidas adotadas na gestão Bolsonaro, como a manutenção da CNH com validade de 10 anos e o limite ampliado de pontos para suspensão do direito de dirigir, facilitando a vida de quem trabalha ao volante.
Com modelos econômicos radicalmente diferentes — de um lado, o protecionismo e incentivo direto à indústria local (PT); do outro, a desoneração tributária e o livre mercado (PL) —, a decisão do eleitor no final de outubro ditará as regras das concessionárias e o preço que pagaremos nas ruas até 2030.




