A GWM escutou o conservador mercado brasileiro de picapes, mudou a rota de última hora e lançou a Poer P30 (2025-2026) com um tradicional motor 2.4 Turbo Diesel, deixando a badalada versão híbrida para um segundo momento. Com preços agressivos (na casa dos R$ 260 mil para a versão topo de linha Exclusive), ela chegou com a difícil missão de roubar clientes da líder intocável Toyota Hilux e da tecnológica Ford Ranger.
Com muita tecnologia embarcada, um interior luxuoso digno de SUV premium e 184 cv de potência, a caminhonete chinesa chamou a atenção. Mas a transição e a adaptação do projeto asiático para o trabalho duro nas estradas do Brasil trouxeram alguns efeitos colaterais. Se você está pensando em colocar essa picape na garagem, precisa conhecer os defeitos de juventude e as principais reclamações dos primeiros donos.
1. O “Passo Atrás” na Suspensão (Ela Pula Demais)
O maior choque de quem compra a Poer P30 esperando o conforto aveludado de um Haval H6 é o comportamento dinâmico da traseira da picape.
- A Troca de Projeto: Na China, o modelo original da Poer é equipado com uma moderna suspensão traseira five-link com molas helicoidais (muito semelhante ao excelente acerto de conforto da Nissan Frontier). Porém, por medo de que o brasileiro do agronegócio achasse a picape “frágil” para o transporte de carga, a GWM decidiu instalar o velho e rústico feixe de molas no modelo vendido aqui.
- O Resultado Prático: A suspensão ficou excessivamente firme. Quando a caçamba está vazia, a traseira “pula” de forma desconfortável em ruas de paralelepípedo, asfalto irregular e costelas de vaca em estradas de terra. O solavanco no banco de trás é uma das queixas mais frequentes, exigindo que muitos donos rodem com a calibragem dos pneus mais baixa (cerca de 32 libras) para tentar amenizar as batidas secas.
2. ADAS: Alertas Intrusivos e Desconexões
O pacote de assistências semiautônomas da Poer P30 é completíssimo, mas a calibração do software ainda tropeça na sinalização precária das rodovias brasileiras.
- Volante “Teimoso”: O sistema de manutenção de faixa é frequentemente descrito como muito sensível e intrusivo, puxando o volante com força em vias com marcações gastas ou na presença de motocicletas no corredor.
- A Desconexão Silenciosa: Alguns proprietários relatam que o controle de cruzeiro adaptativo (ACC) e o assistente de trajetória às vezes se desativam sozinhos do nada, emitindo apenas um aviso sonoro muito discreto no painel. Se o motorista não estiver totalmente focado, pode levar um susto em curvas de rodovia.
3. O Foco dos Faróis e Ruídos Internos
Embora a cabine tenha um acabamento de altíssimo nível, o uso diário em pisos acidentados revelou pequenos deslizes na montagem.
- Iluminação Concentrada: Os faróis Full-LED são esteticamente muito bonitos, mas há críticas sobre a projeção do facho de luz alta. Ele é apontado como muito centralizado, falhando em “abrir” a luz para iluminar adequadamente as margens e os acostamentos de rodovias muito escuras.
- Grilos de Acabamento: O isolamento acústico do motor diesel na cabine é formidável, mas donos já relatam barulhos e rangidos plásticos vindos do acabamento interno dos retrovisores laterais (exatamente onde fica o indicador luminoso de ponto cego). Falta uma guarnição emborrachada para isolar a peça nas trepidações.
4. O Efeito Titano (O Medo do Pós-Venda no Interior)
Este não é um defeito mecânico da picape, mas um problema estratégico grave da operação em expansão no Brasil.
- A Rede Agro: Quem compra caminhonete a diesel geralmente roda no interior do país, em regiões agrícolas. A rede de concessionárias da GWM ainda é fortemente concentrada nos grandes centros urbanos.
- A Falta de Peças: Assim como a Fiat Titano vem sofrendo, tentar inserir uma picape de trabalho de uma marca nova exige um estoque de lataria e peças de suspensão absurdamente robusto. Bater uma Poer P30 no trânsito de hoje significa correr um risco altíssimo de deixar o seu veículo imobilizado por mais de 30 dias aguardando a chegada de um farol ou para-choque via importação.
5. Motor de 184 cv (Suficiente, mas Não Empolga)
- O Desempenho Real: O motor 2.4 Turbo Diesel entrega 184 cv e exatos 48,9 kgfm de torque, trabalhando em conjunto com o moderno câmbio automático de 9 marchas. É um motor suave e que responde bem em baixas rotações. Porém, num segmento onde a Ford Ranger V6 entrega 250 cv e a S10 bate os 207 cv, a chinesa não sobra em retomadas pesadas. Se você costuma rodar com a caçamba lotada e cabine cheia, vai sentir falta de um pouco mais de fôlego em aclives de serra.
Conclusão: Test-Drive Rigoroso é Obrigatório
- Veredito: A GWM Poer P30 entrega um custo-benefício, nível de luxo tecnológico e uma garantia estendida de 10 anos que as marcas tradicionais não conseguem igualar neste patamar de preço.
- A Regra de Ouro: Jamais compre esta picape no escuro. Vá à concessionária e exija um test-drive que passe obrigatoriamente por ruas remendadas, lombadas altas e paralelepípedos. Se o famoso “pula-pula” da suspensão traseira (feixe de molas) vazia não for um problema para a sua coluna, você estará levando um excelente veículo para casa.






